O Absurdo no teatro de Samuel Beckett em “Esperando Godot” e “Fim de Partida”

Esperando-Godot-Samuel-Beckket

 

Diz Theodor Adorno, filósofo e sociólogo alemão, crítico da obra de Samuel Beckett, em trecho de seu livro Teoria Estética:

 

As peças de Beckett são absurdas, não pela ausência de todo e qualquer sentido – seriam, então, irrelevantes -, mas porque põem o sentido em questão. Desenrolam a sua história. Assim como a sua obra é dominada pela obsessão de um nada positivo, assim também o é pela obsessão de uma absurdidade por assim dizer merecida, sem que, no entanto, esta possa ser reclamada como sentido positivo.”

 

O teatro de Beckett recebeu a alcunha de “Teatro do Absurdo” não por acaso ou por objetivo semântico de rotulá-lo de alguma coisa, mas porque seus personagens fracassados e “tortos” vivem uma vida absurda em suas peças.

Adorno nos alerta para esse fato afirmando que seus textos não têm o objetivo de não trazerem sentido, mas de questionar esse sentido. Questionar o próprio sentido das coisas, da vida, do tédio, da existência.

Parece que é isso que Beckett faz em Waiting for Godot, Esperando Godot como foi tantas vezes encenado aqui. Questiona o tédio, o sentido de buscar alguma coisa que nem se sabe o que é. O absurdo de dois maltrapilhos, Estragon e Vladimir parados diante de uma árvore isolada do mundo esperando esse tal de Godot, que claro, nunca se descobre quem é. Adorno nos faz refletir sobre como Beckett tenta ridicularizar a vida cotidiana e banal, sem sentidos maiores, num vazio de propósito e num mundo absurdo, injusto e sem lógica.

Olhando o absurdo desta passagem da peça, repetida algumas vezes pelos dois “vagabundos” protagonistas, um falando com o outro, os dois, mendigos com uma dignidade já bem degradada:

 

– “Precisamos ir embora!”

– “Não podemos!”

– “Por que?”

– “Estamos esperando Godot!”

– “É mesmo!”

 

Essa é a obsessão da absurdidade a qual se refere Adorno. Eles esperam, esperam, esperam e nada acontece na sequência nem no palco. A árvore, o vazio, o tédio. Tentam até brigar e irem embora, se afastando um do outro, mas depois de pouco tempo, voltam a ficar juntos e nem se sabe porque têm que ficarem juntos, tão pouco porque têm que esperar o tal Godot, aliás o nome Godot, e isso li em algum lugar do qual já não me lembro, pode significar uma variação do nome God, Deus em inglês, ou seja, Vladimir e Estragon, um russo e um francês estariam esperando por Deus, ou qualquer questão metafísica relacionada com o desígnio de vida dos dois nas mãos de uma divindade superior que os guia e que pode dar a eles, finalmente, um sentido de vida.

Esse absurdo da falta de sentido da vida e a expressão dramática para ridicularizar nossa miséria humana se repete em Endgame, Fim de Partida em português. O absurdo é também evocado com a história, encenada no palco, pela família de Hamm, patriarca cego e seus pais amputados, Nagg e Nell. Tudo muito estático, parado, também vazio como em Godot. O único que se move dentro de uma casa meio claustrofóbica é Clov, o filho adotivo. De novo a ideia do nada positivo de Adorno, a espera, o enclausuramento dos personagens, aqui, presos em suas deficiências que parecem advir das guerras que assolaram a Europa de Beckett. A peça foi escrito depois da Segunda Guerra Mundial e dos horrores do nazismo alemão e do fascismo italiano e o sentido de tudo é novamente colocado em xeque pela claustrofobia rancorosa dos personagens no centro do palco.

Apesar disso, interessante notar que à época da encenação da peça, da mesma forma que com Godot, na antiga União Soviética, Beckett foi criticado pelos líderes da esquerda comunista russa por não ser tão “engajado” em questões sociais e fazer um teatro mais metafísico e com valores decadentes de uma Europa em decadência de valores. O importante é que seu “Teatro do Absurdo” questionava mais do que estruturas sociais ou uma classe explorando outra, questionava o próprio absurdo de viver, daí a importância que Adorno dá à suas peças do pós guerra.

Sobre as peças em texto, os livros propriamente ditos, há as maravilhosas edições da extinta Cosacnaify, tanto de Esperando Godot, quanto de Fim de Partida, já difíceis de serem encontradas além de sebos e do Estante Virtual e uma nova edição da Companhia das Letras para Godot, com a capa acima ilustrada, ambas traduzidas pelo professor de literatura da USP, Fábio de Souza Andrade, grande entusiasta de Beckett e uma das maiores autoridades do dramaturgo e romancista irlandês no Brasil. Que Fim de Partida também seja reeditado e com a tradução de Fábio.

 

– Marcos Duarte

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s